top of page

Análise do Cromossomo Y em Exames de Parentesco: uma ferramenta essencial quando o suposto pai está ausente

  • Foto do escritor: Dra. Ana Carolina Augusta dos Santos - Biomédica
    Dra. Ana Carolina Augusta dos Santos - Biomédica
  • há 7 dias
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Quando o suposto pai não pode participar da investigação, ainda é possível esclarecer o vínculo biológico?


Essa é uma das dúvidas mais frequentes em investigações de paternidade. Muitas pessoas acreditam que, sem a participação direta do suposto pai, não há mais possibilidade de realizar um exame de DNA confiável. No entanto, os avanços da genética molecular permitem que o parentesco seja investigado utilizando outros familiares da linhagem paterna. Entre as metodologias disponíveis, destaca-se a análise dos marcadores do cromossomo Y (Y-STR), uma ferramenta amplamente empregada na genética forense e nos exames de parentesco para reconstrução da linhagem paterna. Embora essa metodologia não substitua o teste de paternidade convencional quando o suposto pai está disponível, ela representa uma estratégia altamente informativa em situações nas quais a análise direta não é possível, como nos casos de falecimento, desaparecimento, recusa em fornecer material biológico ou outras circunstâncias que impeçam sua participação.


O que é o cromossomo Y?


O cromossomo Y é um dos cromossomos sexuais humanos e está presente apenas em indivíduos do sexo masculino. Sua principal característica é a forma de transmissão: ele é herdado quase exclusivamente de pai para filho. Diferentemente dos cromossomos autossômicos, que sofrem intensa recombinação genética a cada geração, a maior parte do cromossomo Y corresponde à Região Não Recombinante (Non-Recombining Region – NRY). Nessa região, a sequência genética permanece praticamente inalterada ao longo das gerações, sofrendo apenas raras mutações naturais. Essa estabilidade permite que homens pertencentes à mesma linhagem paterna compartilhem um perfil genético muito semelhante, denominado haplótipo do cromossomo Y. É justamente essa característica que torna o cromossomo Y uma importante ferramenta para a investigação de vínculos biológicos envolvendo a linhagem paterna.


Como funciona a análise dos marcadores Y-STR?


Os exames de cromossomo Y são baseados na análise de marcadores conhecidos como Y-STR (Y Short Tandem Repeats), regiões altamente polimórficas distribuídas ao longo da região não recombinante do cromossomo Y. Após a extração do DNA, esses marcadores são amplificados por Reação em Cadeia da Polimerase (PCR Multiplex) e posteriormente analisados por eletroforese capilar, permitindo a obtenção do perfil genético do cromossomo Y. Os haplótipos obtidos são comparados entre os indivíduos participantes da investigação e interpretados com base em critérios estatísticos e em bancos de dados populacionais internacionalmente reconhecidos.


Em quais situações esse exame é indicado?


A análise do cromossomo Y é especialmente indicada quando o suposto pai não está disponível para fornecer material biológico.

Entre as principais aplicações estão:

  • investigação de paternidade com pai falecido;

  • pai desaparecido ou não localizado;

  • impossibilidade de coleta do suposto pai;

  • processos judiciais envolvendo reconhecimento de paternidade post mortem;

  • ações de inventário e herança;

  • reconstrução de vínculo biológico utilizando familiares da linhagem paterna.

Dependendo da estrutura familiar, podem participar da investigação:

  • avô paterno;

  • irmão biológico do suposto pai;

  • filho reconhecido do suposto pai;

  • tio paterno;

  • outros parentes masculinos pertencentes à mesma linhagem paterna.

Quanto maior o número de familiares informativos incluídos na análise, maior será a robustez da interpretação genética.


Por que o cromossomo Y é tão importante nesses casos?


Quando o suposto pai está ausente, a genética precisa reconstruir sua contribuição biológica por meio de familiares que compartilham a mesma linhagem paterna. Como o cromossomo Y é transmitido praticamente sem alterações entre as gerações, ele funciona como um verdadeiro marcador da ancestralidade paterna. Na prática, isso significa que um filho do sexo masculino compartilha praticamente o mesmo haplótipo de cromossomo Y que seu pai, seu avô paterno, seus tios paternos e outros homens da mesma família. Essa característica permite investigar se existe compatibilidade com a linhagem paterna, mesmo sem a participação direta do suposto pai.


Como interpretar os resultados?


A interpretação dos resultados deve ser realizada por profissionais habilitados, considerando não apenas a compatibilidade dos haplótipos, mas também o contexto familiar e os cálculos estatísticos aplicáveis. Quando os perfis de Y-STR são incompatíveis, é possível excluir o compartilhamento da mesma linhagem paterna, salvo em raríssimos casos decorrentes de mutações. Por outro lado, a compatibilidade dos perfis indica que os indivíduos analisados pertencem à mesma linhagem paterna, sendo esse resultado compatível com o parentesco investigado. É importante destacar que a análise do cromossomo Y não permite identificar qual homem específico da família é o pai biológico, pois indivíduos pertencentes à mesma linhagem paterna compartilham, em regra, o mesmo haplótipo. Por esse motivo, essa metodologia deve ser interpretada em conjunto com outras evidências genéticas, documentais e familiares.


Exemplo prático


Imagine uma situação em que o suposto pai tenha falecido antes do nascimento da criança. À primeira vista, muitas pessoas acreditam que a investigação de paternidade se tornou impossível. Entretanto, se houver disponibilidade do avô paterno ou de um irmão biológico do falecido, é possível utilizar a análise do cromossomo Y para verificar se a criança compartilha a mesma linhagem paterna.

Em outro cenário, quando o suposto pai está desaparecido, um filho reconhecido ou outro parente masculino da mesma linhagem pode contribuir para a reconstrução genética da família, fornecendo informações valiosas para a investigação. Cada caso deve ser avaliado individualmente, considerando a estrutura familiar disponível e a estratégia laboratorial mais adequada.


A análise do cromossomo Y substitui um teste de paternidade?


Não. Quando o suposto pai está disponível para coleta, o exame de escolha continua sendo o de DNA DUO Paternidade, entre suposto pai e suposto filho. A análise dos marcadores Y-STR deve ser entendida como uma metodologia complementar, especialmente indicada para reconstrução da linhagem paterna quando a análise direta do suposto pai não é possível. Em muitos casos, sua associação com marcadores autossômicos e outras estratégias de investigação genética proporciona resultados significativamente mais robustos.


Considerações finais


A análise dos marcadores do cromossomo Y representa uma importante ferramenta da genética molecular aplicada aos exames de parentesco e à genética forense. Sua capacidade de investigar a linhagem paterna permite esclarecer casos que, há alguns anos, eram considerados inviáveis devido à ausência do suposto pai. Quando aplicada de forma criteriosa e associada à interpretação estatística adequada, essa metodologia fornece informações genéticas de grande relevância para investigações de paternidade, ações judiciais, processos sucessórios e reconstruções familiares.


Na BioMedDNA, cada investigação é planejada individualmente, considerando a estrutura familiar disponível e empregando metodologias reconhecidas internacionalmente para oferecer resultados confiáveis, cientificamente fundamentados e compatíveis com as recomendações da genética forense.

Referências bibliográficas

  • Butler JM. Advanced Topics in Forensic DNA Typing: Methodology. Academic Press; 2012.

  • Butler JM. Forensic DNA Typing: Biology, Technology, and Genetics of STR Markers. 2nd ed. Elsevier Academic Press; 2005.

  • Jobling MA, Tyler-Smith C. The human Y chromosome: an evolutionary marker comes of age. Nature Reviews Genetics. 2003;4(8):598–612.

  • Kayser M. Forensic use of Y-chromosome DNA: a general overview. Human Genetics. 2017;136(5):621–635.

  • Gusmão L, Butler JM, Carracedo A, et al. DNA Commission of the International Society for Forensic Genetics (ISFG): recommendations on Y-STR analysis. Forensic Science International. 2006;157(2–3):187–197.

  • International Society for Forensic Genetics (ISFG). Recommendations on lineage marker analysis in forensic genetics.

  • Willuweit S, Roewer L. Y Chromosome Haplotype Reference Database (YHRD): update and perspectives. Forensic Science International: Genetics. 2015;15:43–48.

 
 
 

1 comentário


Convidado:
há 5 dias

Muito bom! Esse artigo ajudou bastante a sanar minhas dúvidas.

Curtir
atendimento por whatsapp
bottom of page